aDORé

Quanto tempo cada humano pode suportar a dor, a mesma dor, digo? Creio que bastante. A melhor forma de dimensionar o quanto se pode aguentar em sofrimento é, possivelmente, após a sua passagem.

Lembro-me do anjo da História, de Walter Benjamin (1987, p.226):

Ele gostaria de deter-se para despertar os mortos e reunir os vencidos, mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele dá as costas.

Ao olhar para o passado e virar-se para o que está por vir, entra-se em agonia. Não há como trazer os mortos, não há como ignorar que perdeu-se os vencidos. Eu perdi, porque me perdi com eles ao me posicionar na e com a memória. Que restará deste anjo? Será que se renderá ao progresso, ao futuro? Temo que jamais haverá redenção para ele, dado o que vê no passado. A sua face estática e boquiaberta é a reação que pode ter. O paraíso, que lhe sopra um vento, o prende. Será o presente? Temo que ele não exista, em todos os casos.

Coll IMJ, photo (c) IMJ
Paul Klee, Angelus novus (1920)

A sensação de paralisia é compatível com a dor. Perder o profundo amor é paralisante. Há algo de irresistível para este anjo. Há algo irresistível para mim também. Não pode-se evitar as profundezas. Tampouco pode-se evitar sofrer a ausência.

Olhar para o passado, recente ou não, faz com que se perceba o quanto podemos ser fortes. E não somente. Mas, na resistência. E no quanto um se pode auto enganar em nome da sobrevivência às dores. Constrói-se uma forte armadura, projeta-se a imortalidade, renega-se o poder da fragilidade humana. Como ser pessoa é volátil! E como reluta-se insistentemente em ignorar tais obviedades.

Nascer e morrer estão brotados da mesma raiz, resultado do mesmo fim: chão, terra, argilosa e úmida. Do barro ao fertilizante. Tarda-se tanto para entender essa tão simples coligação. Entre estes dois só há uma única chance: a de viver. A agonia do Anjo é a mesma que a minha: olhar para o passado, me dar conta de que houve vencidos e mortos, e tentar manter-me erguida, em voo. Para algum futuro mais inteligível? Talvez. Mas, de momento, reconhecer a dor da visão do passado e manter a vida em projeção para amanhãs possíveis, certamente é o melhor que se pode fazer.

(À memória de minha mãe)

Anúncios

2 comentários em “aDORé

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s