Nordeste: tag líquida de um passado visionário

Para a História, o global pode ser mais antigo do que parece. Tentamos fazer conexões profundas nas diversas organizações políticas, gerar conceitos importantes para explicar a convergência econômica, chamá-la de macro, micro, enfim. O sistema-mundo de Wallerstein, a economia-mundo de Braudel, por exemplo, fazem uma grande conexão intra terrestre para explicar que estamos conectados. A partir disto, podemos entender nosso presente? Geramos com a memoria e a recontação do passado novos olhares sobre nós? Sobretudo, aonde vamos quando sociólogos, cientistas humanos, como um todo, tentam, quase que compulsivamente, nos cativar ao pensar nas fluidas relações que tecemos, graças a essa teia global de interação que ampliamos nos dois últimos séculos?

carmin_InvençãoPara onde vamos e quem somos, identitariamente, nessa vida líquida? A invenção das categorizações não nos ajudará, em essência, a saber sobre isso. Menos ainda, quando elas são grandes tags instaladas à nossa revelia, como quase sempre o são. A peça A Invenção do Nordeste, do Grupo Carmin, movimentou as minhas reflexões nesse sentido. Categoria marcada no tempo histórico, bem presa a pré-modernidade fluida de Bauman, e naturalizada em todos os meios que possamos dar conta, o Nordeste, ao final da peça, se apresentou como sempre deveria ter sido, volátil. Mas, como foi uam categoria fincada em tempos menos líquidos, creio que sua incorporação e não esquecimento tem sempre sua razão de persistência. A Invenção do Nordeste dá conta disso, também.

Será que é preciso nos distanciarmos de algo, e não imergirmos, para poder entender no que estamos interessados? Caso assim fosse, creio que o Nordeste, como categoria, tag, corpo, voz, cadência, jamais teria sido inventado. Na peça cada apartado, cada divisão que a obra teatral foi construída, tentava persuadir a perceber a artificialidade do termo e deixar o expectador desconfortável com ele, quase que imediatamente. Essa é uma das dádivas da arte. Trama inesperada, creio, para boa parte do público nativo (potiguar) a forma que escolheram para versar sobre a Invenção da região mais caricata e publicizada que o Brasil tem, ganhou com o teatro-documental. Irônicos, atuais (sempre), sagazes nas reflexões sobre o tema, leves e ao mesmo tempo profundos no tema-chave.

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Foto: Daniel Torres

Afinal, qual o problema que queriam perseguir?

Para mim, A Invenção do Nordeste ganha uma nova obra, após o colega Durval Muniz. É um recontar, uma busca às fontes, um trabalho artístico com qualidade, porque traz crudeza/transparência na mostra do que os transformou em obra teatral. Outra construção, portanto.

A narrativa do Grupo Carmin estimula que pensemos que somos, sobretudo, quando nos identificamos com o local, com o nosso mundo imediato. E, após este encontro admitido, de que cada um deve menos à liquidez global e mais a “Janduís” (vejam a peça, e entenderão), é que se terá a chance de (re)criar a multifacetada teia que, hoje, ainda insistimos fazê-la, em Nordeste.

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