Não era o noticiário apitando tragédias

Quando no Rio de Janeiro, inebriada por conhecer pela primeira vez os documentos-monumentos existentes ali, na capital imperial que tanto estudei, pude ser tocada por uma realidade não tão distante de minhas páginas amareladas de pesquisa.

Tenho investigado o passado para entender a trajetória do serviço público no Brasil. No caso da justiça, minha tese traz aspectos de como seriam as condições sociais e materiais do cidadão do Império do Brasil quando aceitava servir ao sistema judiciário. Esta questão me sensibilizou há um bom tempo.

Ao visitar o Museu Nacional de Belas Artes, reduto importantíssimo de obras únicas que expressam o Brasil de ontem e de hoje, vi o Rio de Janeiro que lia nos jornais desde um ângulo inesperado. Não era o noticiário apitando tragédias. Tampouco grupos de trabalhadores organizados reivindicavam melhores salários. Era o Diário Cotidiano estampado diante de meus olhos.

Eu vi um estado decaído nas Belas Artes. Era o Nacional despedaçado. Era o calor estúpido do verão carioca, estourando as cores fortes da falta de cidadania. Explico-me. Entre salas e mais salas, entre portais e portais que eu transpassava naquele edifício, havia gente. Não era o transeunte, também não era o turista encantado por observar obras de mais de dois séculos de existência ali. Meus olhos se fixaram atentamente nos homens e mulheres que tinham como missão cuidar do patrimônio material e artístico daquele Museu Nacional (?).

Essas pessoas suavam em roupas que tapavam o colo até o pescoço e que prendiam seus punhos. Ao sul dos corpos, tinham os seus poros travados com meias e sapatos sociais. Como é possível?

Herméticos, não. Hermetizados, sim. Salas tapadas, sem ar. Salões e Corredores sem ventilações, janelas inexistentes. Que arquitetura é essa? Aqueles corpos suados, cansados da fadiga do verão pareciam esculpir uma cena de horror.

Houve um homem. Um. Ele emocionou-me. Ele fez-me vir até aqui (portanto dedico-lhe estas linhas torpes, mas honestas). Este ser, por algum motivo, resolveu falar a alguns visitantes sobre si e os seus iguais. Ele disse que o que viam ali era o descaso, que a atual condição em que estavam era por conta do governo, que inviabilizava os investimentos. No fundo, em nome da arte, valia  aquela pena? – pensei.

Eu sei que não valia. E não havia e nem houve nada prático que eu pudesse fazer para mudar aquela cena crua. É uma dor de alma. Ver antípodas, sentir antípoda.

Eu não estava próximo ao homem-cidadão que explicava as queixas sobre suas condições de trabalho. Não sei como aquelas pessoas a quem ele se dirigiu refletiram sobre isso ou como se sentiram.

O que eu sei é que passaram-se dias e mais dias de visita a Museus e não houve um só momento em que eu não priorizasse observar as condições de cada cidadão que trabalhava  neles, e atentasse para a incômoda sensação de estar inerme.

Eu já não sei se amo a História ou se detesto a condição humana.

Cadafalsos.

 

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