Percentagens Ensaios e outras sensações. 3%

Certa vez, meu orientador me explicava sobre ser ou não original em meus escritos. Ele dizia que A não era igual a B . Logo, mesmo que haja A no B, ele gerará C. Ou seja, desde que eu unisse vários saberes já discutidos por mim e inserisse novos, eu teria nisso uma nova produção.

Pode até parecer uma conversa de doido, mas fará sentido, não se preocupe.

É mais ou menos isso que leio na primeira série brasileira da Netflix, 3%. As minhas memórias sobre leituras feitas, de filmes ou de livros, sempre eram acesas quando via aos episódios da primeira temporada.

Não é nada de novo. A série não sei se propõe-se ser uma divisora de águas no gênero, mas, em suma, ela brinca com esta memória possível. Creio que ela tem uma expectativa no expectador, para levar com sinceridade estas linhas.

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Caso não tenha visto ainda, adianto o elementar. Trata-se de um mundo decaído, futurístico, talvez. Distópico, certeza. Há um mar que separa o mundo civilizado do seu antônimo. Este lugar decaído, sem estrutura básica, vivendo de sobras, do reciclo odioso é de onde os exemplares cidadãos de méritos testam e buscam novas aquisições para seu perfeito lócus social.

Então, gerações vivem à espera de que seus filhos, somente aos 20 anos, possam ser selecionados para entrar neste mundo idílico. É uma mescla de utopias e distopias. É uma mostra de extremidades perigosas e que tentam se conectar, para no fundo manter discrepâncias bem delimitadas, para que os poderes permaneçam como estão.

Este lugar perfeito, que alimenta sonhos e esperanças dos que estão “do lado de cá”, como dizem os personagens, chama-se Maralto. Lá há medicina avançada. Lá há conforto. Lá não há fome. Não há carestia. Há felicidade.

Como um espectro extremo de uma sociedade qualquer, que poderia ou não ser a brasileira, a série faz analisar como as minorias conseguem impingir doutrinas de várias naturezas sobre uma grande parte da população que ali habita.E, ainda assim, com pregadores religiosos apoiando a proposta perfeita “do lado de lá” e animando os fiéis a seguir em dores na esperança de dias melhores para os seus, há resistência. “A Causa” luta como uma célula cancerígena e resistente para dissipar a naturalização da desigualdade brutal que se argumenta na série. Então, é necessário ter infiltrados, é importante ter discípulos de ambos os lados, é fundamental que se ame A Causa, até a morte. É outra faceta da trama.

Entre tantas construções que se costuram, outras percepções vieram à mente. A primeira é sobre Manoel de Barros. Recordei do documentário biográfico sobre ele em “Só dez por cento é Mentira”(2010), de Carlos Alberto Didier.  A máxima “tudo que não invento, é falso” faz muito sentido aqui. Afinal, a fabricação do discurso meritocrático, forte na série, aparece como uma grande chave para entender o paradigma da cooptação dos indivíduos à proposta do Maralto. É a grande construção de uma narrativa que leva uma esmagadora massa a acreditar que “tudo que acontece com você, é porque você mereceu”. Em uma sociedade em que a única oportunidade igualitária é uma bateria de provas que seleciona apenas os 3% ultra aptos, pode-se entender que, se há a aceitação, é porque há o convencimento.

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Os habitantes “do lado de cá” não problematizam/reivindicam a promoção da igualdade e da oportunidade na sociedade em que vivem. Eles conformam-se com o mau estado e lutam entre si (ou não) para entrar no jogo dos homens civilizados. Portanto, é um mau agouro. Para nossa sociedade atual o é. Quantos por cento é mentira? Seria a série mais uma poética inflamada, como as invenções de Manoel de Barros? Não sei responder.

Por outro lado, veio-me à memória Saramago em “Ensaio sobre a cegueira”. As obras escrita (1995) e  fílmica (Blindness, 2008) levam-nos a pensar em situações limite que nos atiçam para os piores sentidos que poderíamos ter. Sem estrutura alguma, chegou-se ao ponto de aquela sociedade viver no limiar da insanidade por falta de visão. A cegueira ficou evidente em 3%. Os poucos que a tinham, a usaram para beneficio de poucos, raros seres. Agora, claro, entre Saramago e esta série havia um grande coração que resistia. Seria a “mulher do médico” do Ensaio, “A Causa” do 3%? Talvez. Ainda deverá haver outra temporada para entender aonde a trama nos conduzirá a todos.

Os eleitos por méritos, claro, entram em uma espécie de nave submarina que os conduzirá ao paraíso na Terra. Uma coisa é certa: quem vai para o Maralto primeiro submerge. Essa metáfora acompanha a trama inteira. Aliás, o nome do lugar é muito pouco falado/nomeado, inclusive. Se era um lugar ansiado, como a terra de cocanha ou o que o valha de oásis, resulta curioso que não haja mais que adjetivos, enunciações e expectativas sobre o lugar que foi idealizado.

Será  proibido nomear sonhos? Ou será que a utopia chama-se Maralto e outra realidade os espera? Só saberemos após a nova temporada.

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2 comentários em “Percentagens Ensaios e outras sensações. 3%

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