À vanguardia:Pobres de marré e a esperança

Desde 1998, há algum sinal de preocupação institucional, do estado, em torno da situação da população de rua no Brasil. Em 2008, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS),  organizava um possível perfil desta população no país. A definição seria “um grupo populacional heterogêneo, caracterizado por sua condição de pobreza extrema, pela interrupção ou fragilidade dos vínculos familiares e pela falta de moradia convencional regular” (MDS, 2008). O Censo do IBGE (2012) levantou o número de 1,8 milhão de moradores de rua no Brasil.

O que mais impacta é que até este ano, de 2016, não havia uma única mobilização para contabilizar e entender, de maneira objetiva, o perfil desta população no Rio Grande do Norte. Apenas agora, a Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Norte (DPE-RN) em parceira com entidades como a UFRN e o Movimento Nacional da População em situação de Rua, começa a buscar mecanismos para entender quantos e quem são os moradores de rua de Natal (vide sobre isto aqui).

E, para minha grata surpresa, antes mesmo do Ministério do Desenvolvimento Social, da Defensoria Pública, o Grupo Carmin trouxe a denúncia-problema à tona, através de sua sempre atual peça Pobres de Marré. Desde 2006, o grupo começou a pesquisar sobre o tema e saiu às ruas e aos postos de saúde para entender quem são estes atores sociais que nos cercam e que são invisíveis ao mesmo tempo.

19061700701_592587048f_k
Foto: Henrique Araújo

Enquanto o número de moradores de rua cresceu em 10%, muitos sendo chacinados sem o menor sentido para os atos de violência, a população de rua achou nesta obra de teatro um lugar para morar. Maria e Dasdô, personagens fortes com nomes ordinários, retrataram uma experiência única e profunda de investigação e de sensibilidade. Isto porque, se você lê qualquer indicador sobre as motivações para alguém se abrigar nas ruas, encontrará um elo em toda a trama de Pobres de Marré. Violência doméstica, drogas, desemprego, incapacidade física ou mental e, sobretudo, falta de suporte familiar  (ou abandono, para ser mais direta) formam o escopo de razões para a situação.

Desde sua estreia, em 2007, a peça está ativa a girar pelo país. Nada mais atual. Uma década se passou e, apenas neste ano, começa-se a agir em função de uma atuação mais eficiente do poder público em torno desta questão (veja a matéria da Prefeitura sobre a unidade de referência para população em situação de rua em Natal).

fotohenriquearaujo
Foto: Henrique Araújo

Aqui, uma ligeira reflexão meio à supetão. Maria é das dores. E, Dasdô é Maria. São tantas nelas próprias e, ao mesmo tempo, nos traz uma questão em uníssono: onde nós estamos quando ocultamos estas pessoas de nossas paisagens urbanas?

É o início da peça, uma busca: a procura por esperança estava na boca do lixo. Espera-se pelo quê nos restos dos outros? Ao mesmo tempo, ao conviverem e atuarem nos recantos, entulhos da gente que quer apagar o que não lhes convém, nos mostra a vida que persiste. A busca pela cura, de Dasdô, a expectativa de que os classificados do jornal trouxesse o emprego e o dinheiro a Maria, mostram perspectivas de um presente que resiste.

Entre a linha tênue da mentira e da demência, alguns diálogos nos aproximam das personagens de maneira quase letal. Porque, se elas estão a tergiversar seus mundos reais com os de que sonham, nos embebem em uma teia de interpretações sobre o mundo que vivem e o que escolheram projetar. Pode parecer estranho, mas entendo isto como belo.

A grande síntese desta tela que se coloca ao expectador, para mim, está na cena em que Maria interpreta seu sonho de ter uma família. Era um encontro entre o que não foi mais a dura realidade que lhe cercava. Ela não sonhava com um companheiro que trabalhava na padaria, que tinha um negócio no ramo do comércio. Ela tinha como o “Amor” (era como chamava ele, creio) o carroceiro que chegava cansado e precisava do sofá para se deitar. Sim, em sua casa havia mobília, comida e sua família tinha nove filhos e marido. Algo que me recorda muito o país de Cocanha, imaginário e perfeito mito que circulava na Europa desde o século XII. Ali seria a terra dos prazeres, da abundância e da liberdade (veja Cocanha: a história de um país imaginário, de Hilário Franco Júnior).

Teria Maria, em meio a pouca fartura, idealizado todos os prazeres que lhe faria feliz? Talvez. Por outra parte, Dasdô tiraria toda a importância da figura masculina em sua vida e é a voz de uma dura realidade que lhe fez preferir entregar sua cria à enfermeira. São histórias que se cruzam, talvez seja o ponto de convergência percebê-las em nós.

A esperança, porém, nunca as abandona. Maria aguarda por dinheiro. Dasdô espera o seu Zé, que sempre a esquece quando vem com a carroça do trabalho, para lhe apanhar. No final, até ela mostra suas idealizações.

Na volta para casa, após assistir a peça e jantar, já tarde da noite de um domingo em periferia, havia um carroceiro em seu jumento a trilhar seu rumo pela avenida asfaltada. Será o Zé de DasDô, perguntei-me. Achei místico o encontro e, por isso, resolvi escrever. E daqui me vou, em esperanças.

Anúncios

3 comentários em “À vanguardia:Pobres de marré e a esperança

  1. Gosto do estilo da Vanessa; quando o Censo detectou 1,8 em 2012, considerando que o Resultado não é pontual, a saber: Levanta um número em um período e publica o resultado em momento posterior, significa dizer que o número jé era maior, o que faz acrescer a preocupação; na peça Maria e Dasdô, a qualquer momento pode ser substituída por José e Zé, Maria e José, Dasdô e Zé; o que não falta é Ator, nas Ruas do Brasil, vivendo um Novela Real que o Poder Público insiste em não assistir, preferindo às Novelas maléficas para o Brasil, sem que lhe cause ônus, Financeiro; os demais Danos oriundos dessa realidade, vão surgindo a cada Dia.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ainda não sei se parabenizo Vanessa por expor de maneira tão lúcida o seu percurso reflexivo sobre a peça Pobres de Marré [em tempos obscurantistas] ou ao carroceiro que motivou, de certa forma, sua decisão em escrever este texto [risos].
    Enfim, aguardo as próximas publicações. Até!

    Curtido por 1 pessoa

  3. São tantas Marias das Dores por ai, tantas ignoradas por tanta gente que vinje não vê-las, muitas vezes enquanto elas imploram por ajuda. A inciativa do grupo teatral é muito boa, e seria maravilhoso se tal ato fosse ainda mais divulgado e atingisse a população em geral.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s