Teatralizar a história: quando a encenação percorre a memória

Quem conhece Carlo Ginzburg já ouviu falar em microhistória. Em linhas miúdas, é uma forma de escrever o passado a partir de um cosmo específico e, a partir dele, entender o veio social e político em que aquela vida estava inserida. Jacy traz ao espectador essa forma de construção do passado e a transforma em uma obra. Primeiro escrita, depois encenada. E, melhor que o historiografado,  a peça tem a prerrogativa de ser reanimada a cada performance.E é revitalizada a cada encontro com a sociedade.

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E, tratando de história, a peça de teatro que desejo refletir começou a ser gestada em 2010. O embrião, como no ofício do historiador, nasceu dos arquivos. As memórias coletadas, editadas, elegidas pela protagonista Jacy, estavam onde na maioria das vezes o historiador também deve procurar: em espaços de desprezo. O local onde Henrique Fontes, o diretor e ator da peça, encontrou seu acervo, estava em uma esquina, em meio ao movimento da rua povoada. Segundo ele, era um lixo, provavelmente espaço recriado pelos moradores para estocar rejeitos e propositar o esquecimento. Ali, seu arquivo era mesmo como o nosso, o dos que historiam. São lugares oficiais de urbanidade, espaços edificados que institucionalizam a ordem pública mas que, por dentro, são templos do esquecimento. Caso haja curiosidade, leitor, você poderá entrar, ou tentar fazê-lo, em um dos edifícios que tentam arquivar a história potiguar. Ali, encontrará o (des)valor da memória norte riograndense. É como se o Henrique espelhasse o valor das histórias que gostaríamos de (re)contar. Tal como ele, quando entramos nos acervos, farejamos todas as potencialidades que nos possam fazer entender o passado. Ele encontrou no que era lixo, o luxo: uma frasqueira com seu acervo já devidamente selecionado e catalogado. Sim, um luxo!

A partir das fontes coletadas naquela frasqueira, a equipe do grupo Carmin começou a sua saga investigativa. O que eles denominavam de teatro documental para mim era, na prática, o ofício do historiador em marcha. Durante três anos, eles começaram a investigar os indícios deixados por Jacy. Era uma copilação, muito provavelmente elegida por ela, das memórias que lhe fazia sentido preservar. Os nomes que apareciam ali, os números de telefones, os oficios de pessoas ordinárias levaram os investigadores a uma saga de pesquisa invejável. Do entregador de compras até o seu chefe de trabalho apareceram na trama. Retornar às pessoas que faziam parte dos últimos anos de vida de seu personagem de investigação, não poderia ser mais historiográfico.

O diretor alegou que, a partir da trajetória da personagem, o grupo percebeu que poderia contar a história da região e do país. Assim é com a microhistória, que mencionei no início. Eles, mesmo sem referirem-se diretamente, explicavam ao grande público a metodologia da escrita da história. Estes vestígios exemplares de humanos ordinários, nos levaram sempre a entender dos silêncios e das falas destes sujeitos com os seus presentes.

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Foto: Rafael Mendes/Captura.Me

Jacy viveu quase uma centena de anos. Seu transito em vida corresponde muito ao que se conhece da história local. Ceará-Mirim, Natal, Rio de Janeiro e por fim Natal. Seus pousos e partidas diziam sempre respeito a eixos de poder e de desenvolvimento econômico no Rio Grande, quando esmaecia ela movia-se. Isto não fica claro na peça. Mas, se você conhece um pouco da história econômica do Brasil, saberá que os movimentos de Jacy corresponderam a estes encantos por oportunidades. Ela representou com a sua vida este movimento. Ainda mais este do que o da política. Ainda que tenha vivido tempos de exceção, que tenha se comovido com a opressão do estado contra os estudantes na capital potiguar, estes eventos pareciam passar por instantes em sua imersão emocional. Jacy foi um ser ordinário. Creio que daí a preciosidade da pertinência em teatralizar sua vida.

A poesia que se fez com a sua trajetória, através do teatro, a deixaria sem palavras, certamente. Não somente porque alguém se deteve a mostrar o cotidiano de uma vida humana prestes a ser apagada (assim que passasse a coleta de lixo urbano), mas porque foi possível, através dejacy-cartaz-a3-final-webssa vida-rotina, pensar sobre o passado. Sim, a obra constrói-se como os historiadores o fazem. Ela se inquieta com o presente e, assim, estimula a olhar para o passado.

As memórias deixadas na frasqueira permitiram que os investigadores, fossem atrás de falas, de cartas, de jornais e de registros de variadas naturezas, para que Jacy se revelasse com a maior possibilidade de ângulos ao expectador. Os silêncios e as falas só mostraram a importância do ofício do historiador, para mim. E, ao montar a trama em linguagem dramatúrgica, eles elegeram os mesmos percursos que um bom historiador escolheria. Mostraram a motivação subjetiva pela escolha do tema, apresentaram o problema-eixo central da tese que iriam sustentar e a desenvolveram como Georges Duby nos incentiva: imaginação. Incluíram dados, mostraram riqueza de fontes, sensibilizaram o público-alvo sobre uma questão social do presente e cruzaram com o passado.

Um diálogo entre todos estes elementos, quando bem executados, não podem deixar um ser humano da mesma forma que entrou. Quando um expectador “lê” a peça,  sai transformado. Ele sai, também, informado e, porque não ir além, ele sai engajado. Quem senta para ver a Jacy entra num caminho sem volta para o trem da história. Mas não de maneira infantil, fanfarrona ou irônica de ver o passado. Mas se depara com si próprio, com sua vida e com o que contribui para que sigamos socialmente tão iguais ao passado.

Em Jacy, o De volta para o futuro existe. É só abrir olhos e mentes para enxergar.

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5 comentários em “Teatralizar a história: quando a encenação percorre a memória

  1. Achei bem legal sua leitura da peça pelo referencial da história, mostrando o quanto arte e pesquisa podem confluir. “Caso haja curiosidade, leitor, você poderá entrar, ou tentar fazê-lo, em um dos edifícios que tentam arquivar a história potiguar. Ali, encontrará o (des)valor da memória norte riograndense”. Muito me incomoda o descaso que temos que a nossa própria história e cultura, uma notícia interessante que vi recentemente foi essa iniciativa da assembléia legislativa: http://www.al.rn.gov.br/portal/noticias/6741/histria-documental-est-sendo-levantada-a-partir-de-1909-at-hoje

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  2. Adorei, Vanessa. Achei a referência a microhistória genial e não tive como não lembrar de Proust quando fala dessas memórias externas a nós e que são guardadas nos objetos, “nas frasqueiras.

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  3. Muito legal Vanessa, Jacy é uma bela reflexão sobre os caminhos de nossa história, do ” olhar da esquina” aos”olhares do mundo”. Gostei muito de suas impressões sobre a feitura de Jacy.

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  4. Para uma obra de arte, outra preciosidade! Sua crítica à peça está precisa. Parabéns, Vanessa. Eu fiquei completamente atravessada por Jacy. Naquela noite, Jacy dormiu comigo. Me apaixonei por um fantasma que ganhou vida nos corpos destes dois artistas geniais. Façam mais teatro sobre as pessoas sem importância para história oficial. Façam um teatro arqueológico. Precisamos de outras Jacys que nos inspirem a teimar no desejo de viver.

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