Encantarias e encantamentos no Circuito Cultural da Ribeira – Natal

É muito difícil, sempre, lidar com o desconhecido. Não necessariamente os mundos ocultos, a vida além da Terra ou algo do estilo. Desconhecer nos tornará meros ignorantes e alienados em algum tema, sob alguma perspectiva, neste mundo global. Ainda que eu pudesse expressar aqui toda a sincera ignorância pelos caminhos religiosos das matrizes afro e indígena, prefiro pensar mesmo no que o documentário Encantarias promoveu a mim por outros sentidos.

13902620_641274399361308_5912384066532972879_nLançado desde junho de 2015, o documentário Encantarias, de Rodrigo Sena e Júlio Castro, esteve no hall de exibições da Virada Cultural da Ribeira, promovida nos dias 03 e 04 de setembro deste ano. A obra dura aproximadamente 64 minutos e traz para o espectador visões sobre o candomblé, a umbanda e a jurema no Rio Grande do Norte, a partir de relatos dos próprios agentes sociais que atuam e praticam tais rituais religiosos.

O sentido do documentário é mesmo o de trazer ao espectador a lógica dos encantamentos e das crenças com uma simplicidade ímpar que estimula os sentidos e a curiosidade de quem é um mero estranho-espectante.

Mas não apenas isso. O documentário não se propõe a ser um mostruário de exoticidades. O fio condutor da construção narrativa da obra é mostrar com naturalidade um universo conhecido.

Porém, o estranhamento pode estar em nós. Ainda que Encantarias tenha a docilidade de conduzir a história que se propõe com uma intimidade essencial, pois logo nos primeiros minutos de assistência nos tornamos amigos da trama, creio que ele tem uma missão mais política do que de aconchego.

Não há como assistir à obra sem ter a convicção de nossa própria ignorância. Não há como se esquivar de nossa ausência, no que nos deveria ser caro. As influências sociais e religiosas do candomblé, da umbanda e da jurema, assim como do cristianismo e kardecismo, são marcas indeléveis de nossa história e de nossa identidade. Ao ver a película, como não se questionar “é possível que se ignore tantas expressões religiosas de devoção e da história local e regional”? Esta pode ter sido a maior contribuição que Encantarias oferta para quem se abre para vê-la.

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Foto: Rodrigo Sena

Este impacto, na mente e na alma de quem a assiste, deve ser rememorado sempre. E, claro, a cada depoimento que se colhe e se registra no documentário, observa-se uma reposta a tantos silêncios: há uma falta de vontade política em torno da difusão do tema. Isso não é novidade. Porém, a obra, em si, é um documento político que deixa o espectador ao descoberto. Ponto ultra positivo. Rodrigo Sena argumentou, quando questionado sobre o interesse em produzir algo como o Encantarias, que quis mostrar a diversidade, mas também os ritos de matriz afro e indígena, a uma sociedade que negava sua cultura. Precisamente. E, nesse sentido, creio que cumpre o seu papel no cenário audiovisual e político, que se associam perfeitamente.

Foi importante ver como estas manifestações religiosas são parte de nós. Essencial entender a diferença entra cada uma delas. Sobretudo, perceber o quanto o Rio Grande do Norte está imerso nestes traços socioculturais e o quanto lhe é legado o ostracismo. Não há museus conhecidos e divulgados sobre esta herança que perpetuamos. Não há uma propagação sobre a religiosidade de matrizes afro e indígena na área do Turismo ou da Gestão de Políticas Públicas e, muito pior, está como tema inexistente nas escolas. Terreno perfeito para as intolerâncias, portanto.

Em uma era de Escola Sem Partido, nada mais atual do que seguir vendo e divulgando o Encantarias. Aliás, uma turma de universitários esteve no Circuito, incentivados por mim. Precisamente porque ocupar as salas de exibição também faz parte de uma jornada política de ganho dos espaços cotidianos, em prol das minorias. Afinal, como o próprio Sena afirmou, não é possível ‘desmistificar’ sem dois elementos essenciais: tempo e educação. E, ali, nós estávamos engajados a semear, para que o tempo germine a boas colheitas.

Para encerrar minha dissertação sobre o tema, gostaria de pontuar: Encantarias é uma obra inacabada. Explico-me. É um ponto de partida e não de chegada. É um ponto de contato.  Há muito que se trabalhar e aprofundar a partir do grande trabalho de condensação e profusão que dele se exala. As falas precisam ter maior espaço. Aos adeptos, aos sacerdotes, aos curiosos e aos contrários, a voz. A cada culto e celebrações mais pesquisa, mais interação com a antropologia que os estuda e os ouve. Resultará  numa excelente jornada. Não sei se necessariamente aos produtores, mas o fato é que ainda há muito a se trilhar. Essa é a grande essência das obras de arte e de cultura: que nos façam pensar, sentir e, disso, nos propulsione a produzir mais. É o que faz a vida ter sentido, também.

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2 comentários em “Encantarias e encantamentos no Circuito Cultural da Ribeira – Natal

  1. Encantarias e encantamentos no Circuito Cultural da Ribeira – Natal

    É o tipo de texto que mexe com o leitor, um verdadeiro convite para uma reflexão sobre nossa própria ignorância que, por vezes, gera preconceitos.

    Ao ler o texto, lembrei-me de quando era adolescente e, certa vez, passeando de bicicleta com um grupo de amigos, resolvemos ir conhecer um terreiro de candomblé, já que tínhamos essa curiosidade. Entramos e, não demorou muito para que eu e alguns da minha turma fôssemos convidados a deixar o recinto, devido a uma crise incontrolável de risos.

    Uma atitude, idiota, preconceituosa, imatura. Sempre aprendi nas aulas de religião na escola onde estudava o ensino fundamental, que o cristianismo era a única religião autêntica e as demais, que nem ao menos se considerava “religião” eram tidas como “seitas”, dizia a professora. Essas “seitas” eram uma espécie de espetáculos protagonizados por pessoas que invocavam forças do mal para prejudicar pessoas de bem, por meio de ritos, despachos, vodus etc..

    Os índios, também não tinham vez. Não passavam de “selvagens” e sem “almas”, comiam carne humana e eram desprovidos de cultura e responsabilizados pelos massacres de fiéis católicos em Cunhaú e Uruaçu. Basta, hoje, observar como os índios foram ilustrados na Igreja de Uruaçu, pelo seu olhar cruel e impiedoso, dificilmente alguém poderia pensar, de modo geral, que populações indígenas poderiam um dia conhecer o que é, ou ter humanidade.

    A minha cultura é a certa, a do outro é errada. Foi assim que aprendi! Para mim, foi difícil desconstruir esta visão. E, hoje quando lembro de certas atitudes, não acho a menor graça, apenas sinto vergonha.

    Não faz muito tempo que vi dois colegas professores, principalmente, de história terem seus cargos ameaçados por trazerem para sala de aula temas como candomblé. Pais de alunos se organizaram pedindo que o professor fosse retirado da escola porque estava ensinando a seus filhos fazerem “macumba”.

    Enfim, parabenizo pelo texto e por levar um pouco de luz para as pessoas que vivem na obscuridade da ignorância por terem um pensamento tão grotescamente simplificador e seletivo da cultura, ao negar a riqueza de sua diversidade. Ao documentário Encantarias, só lamento por ter perdido a oportunidade de ampliar meus conhecimentos.

    Curtido por 1 pessoa

  2. À menina rebelde da bicicleta que com toda a curiosidade e rebeldia foi ao terreiro
    de candomblé sem nenhuma maldade, tão somente movida pelos anos de aculturação da religião dominante. Esse episódio, a meu ver, ficou marcante na
    sua mente até os dias de hoje. E só agora,ainda bem, você percebe que há a
    crença do outro, a qual é relegada a segundo plano. O papa Bento XVI afirmou,
    quando era cardeal que fora da Igreja Católica não há salvação. Mas isso não é
    verdade. Há várias formas de se comunicar com o Sagrado. O importante a meu
    ver, é você se sentir bem, seguro de sua fé no seguimento religioso por você
    escolhido. Nunca é tarde para acrescentar, sem medo ou preconceito, algo da
    cultura do outro. Vá ao you tube e ouça essa música cantada por Rita Ribeiro em
    homenagem a Oxalá, o nosso Orixá maior: saudação a Oxalá.
    Oni saurê
    Aul axe
    Oni saurê
    Oberionam…

    Curtido por 1 pessoa

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