O porta-retrato

Ele olhou para aquele porta-retrato de margens pálidas e sem foto. Estava ainda ali, na mesa, deitado. E, naquele instante, o seu quarto parecia se estreitar e lhe sufocar. A maquina de escrita, diante de si, promovia uma opressão terrível que não podia mais suportar.

Voltava os olhos para o porta-retrato. Ele era a materialização de sua escolha. Não havia mais fundo, só o papelão que parecia resistir muito melhor que ele. Seguia ali, teso e meio brilhante, há anos.

O café, alento. A liberdade, que reivindicou, não era mais sabor. E a solidão que achava que lhe faria bem, como antes, lhe impunha ao pensamento muitas muidices. Concentração, concentração, dizia a si. Volta os dedos a teclar as linhas digitais. Essa máquina o virtualizará, homem! -repetia em terceira pessoa. Quantos lhe poderão ver, ler e sentir o que nem mesmo você pôde entender? Vá lá!

Imagem de Augusto B. de Medeiros

Café. A página em branco persiste. Deita-se. O teto branco persiste. Olhos fechados. Não se resiste. Mais um café, então. Água a chaleirar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s