O filho de Saul

Na cidade Natal (RN) temos sempre um problema crônico. Ver filmes fora dos grandes circuitos comerciais é quase uma dádiva, uma ginástica. Na periferia de um sistema de consumo e mercado, a sensação que tenho é a de que recebemos os filmes na cidade quando em outros lugares já ninguém mais os consumirá. O resto, portanto. Mas, não são restos porque de menor importância e, sim, porque já consumido em outros circuitos, suponho sempre.

Em cartaz no Brasil desde 04 de fevereiro de 2016 , a película O Filho de Saul (Saul fia) chegou em julho às salas potiguares. Aliás, à uma (única) sala de cinema com um (único) horário de exibição ao dia. O filme húngaro, do diretor László Nemes, recém ingresso no mundo dos longas, traz em sua produção um rejuvenescimento do tema do genocídio judeu do século vinte.

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Foto Divulgação: LÁSZLÓ NEMES

 

Fora da caixinha interpretativa norte-americana,sobretudo, este filme é de um impacto profundo. Como escreveu Santiago Jr, em seu Passo por Acontecer, esta é uma obra importante. Mas, discordando dele, não é chata. Ela envolve o espectador em uma trama de tensão muito forte e trabalha com as cenas de uma maneira inusitada que, ao meu entender, promove a captura total da atenção e da alma de quem lhe assiste. A história se passa no campo de concentração, o ponto de vista é de um Sonderkommando, judeu elegido pelos alemães para coordenar os trabalhos dos próprios judeus no que toca a produção da morte, em larga escala, dos seus. Escrevendo assim, não chega a ser tão terrorífico. Pior é imergir no filme. Como relatou Santiago Jr, a câmera quase que se acopla às costas de Saul e nos permite transitar em um palácio de horrores, naturalizado já pela personagem. A quebra desta naturalização, que interpreto como mecanismo de defesa-bloqueio diante da situação extremada vivida, ocorre quando ele se depara com um espectro de resistência. Aparece o adotado e simbólico filho de Saul, que emerge em vida quando deveria ter sucumbido à câmara.

O argumento do autor, para mim, é muito bom. Ele se propõe a mostrar os passos de um sub-líder judeu dentro do campo de concentração, que sabia de seu trágico futuro mas que resolveu tecer uma nova história sobre si, sobre seus feitos ali e, essencialmente, sobre como ele projetaria um porvir diferente do que o que lhe era certo. É impressionante como não conseguimos nos reconhecer quando nos colocamos na mesma situação. Há sempre um impacto profundo quando nos deparamos com humanos que matam humanos. Ainda mais em escalas impensáveis. Portanto, menos que me identificar, claro, conecto-me ao Saul de forma emocional e talvez até anacrônica. Não é possível, estou certa disso, trocarmos as impressões. É demasiado inumano para ser projetado em nós. Por isso, a fita traz uma mescla de tensão, dor, expectativa e esperança de humanidade. O intento de Saul de dar um enterro digno ao menino que lhe chamou a atenção, para mim, remete a esta tentativa de trazer dignidade, diante de tudo o que de pior ele já teria feito ali, por imposição.

A história do filme não traz necessariamente um mundo de esperança para quem o especta. Fica claro, desde o texto escrito na abertura da obra, que o destino de um  Sonderkommando era o de morrer, pouco depois de lhe impingido o cargo. E, nesse caminho corre o filme. Ele é de uma noção de realidade incrível, que toca e move mentes e sentidos para cada enfoque da câmera. Ademais, cada lugar eleito pelo autor para transitar conosco e contar sua trama é de uma crueza intermitente. Quando se esperava ver a luz do dia ou o que havia para além dos campos, tudo o que nos apresentava a película era a visão de bosques soturnos e desconhecidos, dias sem muito sol, noites fechadas. Desesperança. Qual a perspectiva de Saul lograr algum êxito em enterrar o filho sem nome? Ao se unir a um grupo que tentava alguma resistência ao final óbvio que se aproximava, quais os indícios de vitória? Desesperança.

O Filho de Saul ressalta para mim que é imprescindível relativizar a questão do que é o indivíduo e o que é a coletividade. Sabe-se, claro, que haviam judeus que cuidavam da ordem interior de suas próprias clausuras. E, no geral, existiam as solidariedades entre os que ali estavam, o que movimentava a sanidade uns dos outros. Mas, por outro lado, aquela lida tão passageira, com uma função tão cruel, como era a de Saul e de seus colegas, deixou ainda um marco de individualidade. Eles se destacavam de alguma maneira e isso se repercutia na categoria de trabalhos que deveriam assumir nos campos. É muito importante assimilar isto, mesmo dentro da negatividade da função de Sonderkommando. Não foi neste mesmo destaque que Saul se apropriara dos espaços, da movimentação entre zonas nos campos e que lhe salvara de uma morte imediata e inesperada durante a sua saga?

Além disso há que se destacar: a escolha das cenas foram de impressionar. Era a mostra de que não faria falta mais do que mirar a Saul para entender o seu universo, borrado e viscoso, construído pelas lentes do diretor. Foi um ensinamento importante. A imersão, a que me remeti antes neste texto, tem a total conexão com esta construção. Mas, também, com as roupas, os corpos marcados pelas doenças comuns aos que não tinham alimentação suficiente, os lugares de privacidade e os locais em que era vedado à individualidade. Tudo formava parte da interlocução inquietante que o filme provocava a pensar.

Ademais, para mim, aquele menino que encontra Saul e o grupo rebelde no casarão abandonado é muito poética e metafórica. Era a desconstrução do futuro projetado no filho da redenção de Saul. Era outro menino, era outra a mensagem. O encontro dos olhares do futuro delator-menino com Saul, o único a teatralmente conseguir vê-lo, foi para mim o encontro com o presente. E o protagonista não resiste à ele.

 

O único sobrevivente Sonderkommand, Dario Gabbai, o ator Geza Rohrig e o diretor Nemes.

 

Para não me demorar, ainda devo relatar o quanto despreparados estamos, ao menos em Natal, para ver películas como esta. Ainda hoje, quase uma semana após estar ali na sala de cinema sigo impactada com o comportamento dos humanos. As pessoas entraram com comidas, seguiam numa performance Hollywood de ser, entravam conversando animadamente, como se viesse se entreter. Elas seguiram a fazer os ruidosos moídos, plásticos e crocantes, como se não morrer de fome fosse, ali, uma prioridade. Foi bastante complicado. O que não poderia piorar, piorou. Em algumas cenas, houve quem risse. Quanta tragédia. Pensei, tive má sorte. Não deve ser assim em todas as sessões. Mas, sorrir de uma grande ironia, na cena em que Saul é flagrado pelos nazistas na sala médica, é no mínimo tosco. Um dos chefes, que não falava sua língua, ria dos movimentos de Saul ao explicar que estava “limpando” o lugar. Logo em seguida, quando se davam conta  de que era húngaro, faziam a imitação de uma dança típica de seu povo e o convidava para dançar. Quanta dor. Mas, algumas risadas. Na obscuridade da câmara de cinema haverá sempre a proteção e a liberdade de expressão. Ainda bem.

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Um comentário em “O filho de Saul

  1. Muito bom. Ó texto comunicado muito bem e me despertou a vontade de assistir ao filme. Pena que teria que recorrer à internet, pois aqui no interior não temos cinemas – e se os tivéssemos, certamente não passariam filmes do gênero.

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